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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Brincar com as palavras. TRAVA-LÍNGUAS (2)



Com a letra “T”
- O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

- Traga tinta em trinta taças.

- Um tigre triste, dois tigres tristes, três tigres tristes, quatro tigres tristes.

- Num prato de trigo tragam três tigres. Três tigres tragam trigo num prato dum trago. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato dum trago.

Com a letra “R” 
- Há uma aranha dentro da jarra. Nem a jarra arranha a aranha nem a aranha arranha a jarra.
- Em rápido rapto, um rápido rato raptou três ratos sem deixar rastos.

- O rato roeu a roupa do rei de Roma e a rainha com raiva resolveu remendar.

- O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o ruidoso rei da Rússia.

– Raio – ralhou o rei. – Rato rapace!

– Raça!– rugiu o rato. – É rija a rolha!

Com a letra “P”

- Se percebeste, percebeste. Se não percebeste, faz que percebeste para que eu perceba que tu percebeste. Percebeste?

- Atrás da pia, há um prato, um pinto e um gato. Pinga a pia, apara o prato, pia o pinto, mia o gato.

- Paga o pato, dorme o gato, foge o rato, paga o gato, dorme o rato, foge o pato. Paga o rato, dorme o pato, foge o gato, paga o pato.

- Paulo Pereira Pinto Peixoto, pobre pintor português. Pinta perfeitamente portas, paredes e pias, por parco preço, patrão.

- O pai do Pedro prega um prego na parede do prédio.


Com o “S” e outras letras… 
- A vida é uma sucessiva sucessão de sucessões que se sucedem sucessivamente, sem suceder o sucesso.

- Sabendo o que sei e sabendo o que sabes e o que não sabes e o que não sabemos, ambos saberemos se somos sábios, sabidos ou simplesmente saberemos se somos sabedores.

- Há quatro quadros três e três quadros quatro, sendo que quatro destes quadros são quadrados: um dos quadros quatro e três dos quadros três. Os três quadros que não são quadrados são dois dos quadros quatro e um dos quadros três.

- Gato escondido com rabo de fora está mais escondido que rabo escondido com gato de fora.

- A vaca malhada foi molhada por outra vaca molhada e malhada.

- Fia, fio a fio, fino fio, frio a frio.

- Se a liga me ligasse, eu também ligava a liga. Mas a liga não me liga, eu também não ligo a liga.

- Um ninho de carrapatos, cheio de carrapatinhos. Qual o bom carrapateador que o descarrapateará?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Português a sério. PARTICULARIDADES LINGUÍSTICAS: PORQUE ou POR QUE?

 

POR QUE motivo ou razão

Este POR QUE se mistura

Com a simples conjunção

Se tem outra contextura?

 

POR QUE caminhos andais?

POR QUE vias ides vós?

POR QUE razão vos cansais?

POR QUE motivo andais sós?

 

Em «PORQUE vens assim altivo?»,

«PORQUE tens esse renome?»,

O QUE não é relativo

Por não ter à frente um nome.

 Irondino Aguilar

Na língua portuguesa, há expressões que, tendo uma segmentação diferente no código escrito, se tornam homófonas, na oralidade.

Há que estar atento!

 

. porque

. senão

. os demais (os outros)

. aparte (comentário)

. acerca de

. à-vontade

 

. por que

. se não

. de mais (em excesso)

. à parte

. há cerca de

. à vontade


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Brincar com as palavras. TRAVA-LÍNGUAS (I)

DIA INTERNACIONAL DO TRAVA-LÍNGUAS  (segundo domingo de novembro)

 Divirta-se a recitar trava-línguas aos seus amigos e familiares

Além de serem uma forma original de se apaixonar pela nossa língua, os trava-línguas, tal como as parlendas, também servem para melhorar a enunciação e a dicção.

O que são trava-línguas? O que são parlendas?

Trava-línguas são conjuntos de palavras que formam uma frase de complexa articulação devido à existência de sons que exigem movimentos repetitivos e pouco comuns à língua. Os trava-línguas fazem parte das manifestações orais da cultura popular, são elementos do nosso folclore, como as lendas, os acalantos (canções de embalar), as parlendas, as adivinhas e os contos.


Parlendas ou parlandas (rimas infantis) são sequências discursivas compostas por palavras ritmadas e/ou repetidas que lhes conferem um ritmo musical. São enunciadas para facilitar a memorização de algo, como divertimento infantil. A este texto constituído por palavreado oco, ou conversa fútil, também se dá o nome de lengalenga.

São um bom recurso para trabalhar a leitura oral, mas é importante não expor alunos com mais dificuldades. 

«Pois o velho trava-língua está a deixar de ser apenas brincadeirade crianças, exercício de dicção teatral ou lição contra a gagueira, para ser matéria adoptada em várias estâncias no capítulo da auto-estima. Pessoas que querem perder o medo de se expor, de errar, que têm acanhamento, timidez e vergonha de se comunicar estão aprendendo a se soltar com a utilização de trava-línguas. É fundamental para o desbloqueio da expressão, para ajudar os interessados em soltar a língua e aprender a falar bem nas relações pessoais e nas profissionais.
Saindo do universo infantil, o trava-língua passou a ser usado no teatro e na expressão corporal, e logo se percebeu que era uma arma utilíssima para contornar dificuldades em se expressar. Porque, quando a pessoa se solta, a linguagem começa a fluir naturalmente. Hoje, a velha brincadeira infantil merece ser estudada no campo de Linguística e da Semiologia, e já é encarada como uma nova cadeira: a Linguistoterapia.»

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/lusofonias/trava-lingua/1730 [consultado em 04-11-2020]



 

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Português a sério. PLEONASMOS A EVITAR

EM VEZ DE… “É minha opinião pessoal” Uma opinião é sempre um parecer pessoal.

USE… “É minha opinião”

EM VEZ DE… “Sair para fora” / “Entrar para dentro” “Subir para cima” / “Descer para baixo” São expressões redundantes comuns e passam facilmente despercebidas.

USE... “Sair” / “Entrar” “Subir” / “Descer”

EM VEZ DE… “Tenho um amigo meu que…” Se “tenho um amigo”, ele é necessariamente “meu”. USE... “Tenho um amigo que…”

EM VEZ DE… “Hemorragia de sangue” Por que razão se acrescenta uma palavra que se torna irrelevante?

USE… “Hemorragia”

EM VEZ DE… “Vi com os meus olhos” É impossível ver com os olhos de outra pessoa ou ver com outra parte do corpo.

USE... “Vi”

EM VEZ DE… “Adiar para depois” Não se pode adiar para antes, pois isso seria antecipar.

USE... “Adiar”

EM VEZ DE… “Surpresa inesperada” Não é possível que uma surpresa seja esperada.

USE… “Surpresa” EM VEZ DE… “Eu pessoalmente acho que” É um erro repetir a mesma ideia. USE… “Acho que”

EM VEZ DE… Mar salgado” Fernando Pessoa usou a expressão, visando construir uma relação metafórica entre o mar e as lágrimas derramadas pelos portugueses. Contudo, no nosso quotidiano, é errado dizer “mar salgado”, já que todo o mar é salgado.

USE... “Mar”

“Pleonasmo” é um vocábulo de origem grega [pleonasmos («superabundância»)], introduzido na língua portuguesa através do latim pleonasmu-. Enquanto recurso de estilo, o pleonasmo pode consistir no uso intencional de determinadas palavras e expressões que, sendo repetitivas e redundantes, permitem tornar uma ideia mais expressiva. No entanto, também se refere ao que é supérfluo e desnecessário. Na linguagem coloquial, existem vários pleonasmos que, de tantas vezes repetidos, passam despercebidos e se perpetuam. Quando somos confrontados com expressões ou frases que são redundantes, com diferentes palavras a repetir a mesma ideia, sem acréscimo de informação, isso deve ser considerado UM ERRO A EVITAR.

Adaptado de : https://ncultura.pt/10-pleonasmos-a-evitar/

Português a sério. TAUTOLOGIA

É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada,com palavras diferentes,mas com o mesmo sentido.

- elo de ligação

- acabamento final

- certeza absoluta

- nos dias 8, 9 e 10, inclusive

- juntamente com

- expressamente proibido

- em duas metades iguais

- sintomas indicativos

- há anos atrás

- outra alternativa

- detalhes minuciosos

- anexo junto à carta

- de sua livre escolha

- todos foram unânimes

- conviver junto

- facto real

- encarar de frente

- multidão de pessoas

- amanhecer o dia

- criação nova

- retornar de novo

- empréstimo temporário

- surpresa inesperada

- escolha opcional

- planear antecipadamente

- abertura inaugural

- continua a permanecer

- a última versão definitiva

- possivelmente poderá ocorrer

- comparecer em pessoa

- gritar bem alto

- propriedade característica

- demasiadamente excessivo

- a seu critério pessoal

- exceder em muito …

terça-feira, 28 de julho de 2020

Brincar com as palavras. Língua portuguesa: a vírgula


Sobre a Vírgula

A vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere…

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.

(Associação Brasileira de Imprensa:
100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação)


COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
  
* Se for mulher, certamente colocou a vírgula depois de “MULHER”...

* Se for homem, talvez tenha colocado a vírgula depois de “TEM”...




sábado, 18 de julho de 2020

Língua portuguesa. Poemas de José Régio


Conheça três inesquecíveis e encantadores poemas de José Régio 

por Márcio Magalhães

Este português nasceu com o nome de José Maria dos Reis Pereira e veio ao mundo em Vila do Conde, no dia 17 de setembro de 1901. Tornou-se escritor, poeta e dramaturgo da literatura portuguesa, tendo publicado mais de 30 obras.
Enquanto José Régio – pseudónimo ao qual ficou ligado – foi autor de belos poemas, conquistando o seu próprio espaço na poesia portuguesa através de poemas memoráveis que escreveu. Entre os seus poemas mais emblemáticos estão o “Cântico Negro” e o “Poema do Silêncio”.
Régio morreu na mesma cidade em nascera, em 22 de dezembro de 1969. Além da beleza dos poemas e do talento do autor, os poemas de José Régio servem como verdadeiros ensinamentos.

CÂNTICO NEGRO
“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doce
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

FADO PORTUGUÊS
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

POEMA DO SILÊNCIO

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
- Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo…
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista…
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá…
Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

Márcio Magalhães - Inesquecíveis e encantadores poemas [em linha] Lisboa, 2019. [Consultado em 13.07.2020]. Disponível em WWW: <URL: https://ncultura.pt/5-inesqueciveis-e-encantadores-poemas-de-jose-regio/ >.



terça-feira, 14 de julho de 2020

Português a sério. Língua portuguesa. Pseudónimos de escritores portugueses famosos

Elmano Sadino. Este autor é mais conhecido pelo seu pseudónimo «Bocage»

Márcio Magalhães

Ao longo da História, foram muitos os escritores que escreveram sob a assinatura de um nome que não era o seu. Conheça pseudónimos de escritores portugueses famosos.
Quais os motivos que podem levar um autor a omitir a sua verdadeira identidade? A escolha de um pseudónimo terá sempre razões que revelam muito sobre a personalidade do autor.
Um autor pode ter uma vida profissional noutra área (medicina, arquitetura ou qualquer outra) e enveredar pelo universo das letras, recorrendo a um pseudónimo que lhe garanta total liberdade e o indispensável anonimato. Ou um escritor pode também pretender homenagear alguém (um familiar, um amigo, um escritor…) ou algo (e simplesmente usar o nome da sua terra natal).
Descortinar as razões que fundamentam esta opção nem sempre é fácil. Contudo, é sempre possível especular sobre as inúmeras possibilidades que podem ser colocadas, sabendo que a margem para errar não é reduzida.
Definição de pseudónimo: Termo que vem do grego pseudónymos. Significa nome sob o qual alguns escritores optam por publicar as suas obras, omitindo a sua verdadeira identidade.
O Barbadinho da Congregação de Itália (1713-1792)
Luís António Verney é o verdadeiro autor da obra O Verdadeiro Método de Estudar, uma obra de ruptura num contexto inóspito para quem pretende alterar uma visão ortodoxa. Esta obra foi publicada sob a autoria do anónimo religioso Barbadinho da Congregação de Itália. Nascido em 1713, em Lisboa, este homem que viveu uma vida plena, foi teólogo, padre, filósofo, professor e escritor. Faleceu no ano de 1792, na cidade de Roma, em Itália.

Elmano Sadino (1765-1805)
Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, ou simplesmente Bocage, foi figura de grande relevo da poesia nacional. O seu nascimento, em Setúbal, ocorreu no ano 1765, tendo falecido no início do século seguinte, mais especificamente em 1805.Teve uma vida repleta de peripécias interessantes. No ano de 1790, aderiu à Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras, espaço onde adotou o pseudónimo de Elmano Sadino. Contudo, não foi necessário passar muito tempo até que a sua ímpar personalidade e o seu nome verdadeiro emergissem, pois escreveu críticas ferozes contra os seus companheiros.

Júlio Dinis (1839-1871)
Joaquim Guilherme Gomes Coelho foi um médico que colocou todo o seu talento para as letras em obras que tinham como autor Júlio Dinis. A cidade invicta foi o local de nascimento deste escritor, decorria o ano de 1839. Foi também no Porto que faleceu, no ano de 1871. Entre as suas obras estão títulos tão emblemáticos como As Pupilas do Senhor Reitor, Uma Família Inglesa, A Morgadinha dos Canaviais.

João Falco (1892-1958)
João Falco é, na verdade, uma mulher de enorme talento. Irene Lisboa que tem como sua obra-prima o título Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma, foi também Manuel Soares e Maria Moira, outros pseudónimos usados pela escritora que nasceu em 1892. Foi professora e pedagoga, tendo a sua passagem pela Suíça, França e Bélgica contribuído substancialmente para a sua visão sobre assuntos pedagógicos. Publicou diferentes obras sobre esta temática. Faleceu no ano de 1958, com 65 anos. Sob o pseudónimo de João Falco, publicou, por exemplo, Começa uma Vida.

António Gedeão (1906-1997)
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu no ano de 1906, tendo falecido em 1997. Foi um professor de Físico-Química dedicado e um poeta português. Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus poemas mais famosos. O seu corpo está no interior do Jazigo dos Escritores Portugueses, no Cemitério dos Prazeres (no Talhão dos Artistas), na cidade de Lisboa. Neste jazigo, estão outros escritores importantes como José Cardoso Pires ou Fernando Namora.

Miguel Torga (1907-1995)
Adolfo Correia da Rocha é o nome deste escritor que ficará para sempre eternizado na História da Literatura Portuguesa como Miguel Torga, pseudónimo com o qual publicou a sua obra.
Nascido em São Martinho de Anta, em 1907, tornou-se numa das figuras mais emblemáticas da Literatura em Portugal, no século XX. Faleceu em 1995 e, de entre a sua vasta produção, é possível encontrar obras como: Bichos, Contos da Montanha, Fábula de Fábulas, Cântico do Homem. Miguel Torga é autor de uma produção vasta e eclética, onde explorou contos, romances, ensaios, peças de teatro. Foi no ano de 1989 que recebeu o Prémio Camões.

Eugénio de Andrade (1923-2004)
O nome verdadeiro de Eugénio de Andrade era José Fontinhas. José foi um poeta português que produziu uma obra de um mérito inatacável, sendo reconhecido pelo seu pseudónimo Eugénio de Andrade. Este escritor, nascido no ano de 1923, foi autor de obras relevantes como Narciso, As mãos e os frutos, As palavras interditas. Faleceu com 82 anos. No Fundão, onde nasceu, existe uma biblioteca com o seu nome. Em 2001, quatro anos antes de falecer, recebeu o Prémio Camões.

Outros exemplos
– Teixeira de Pascoaes (1877-1952; o seu nome próprio é Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos);
– José Régio (1901-1969; chamava-se, na verdade, José Maria dos Reis Pereira);
– Luandino Vieira (nascido em 1935, cujo nome é, na realidade, José Vieira Mateus da Graça);
– Almeida Garrett (1799-1855; nasceu com o nome de João Baptista da Silva Leitão. Em Coimbra, onde estudou Direito, adotou o nome que o fez famoso. No início da sua produção literária, usou o pseudónimo de Josino Duriense);

Adaptado de Márcio Magalhães - Pseudónimos de escritores [em linha]. Lisboa, 2020. [Consultado em 13.07.2020] Disponível em WWW <URL: https://ncultura.pt/lingua-portuguesa-pseudonimos-de-escritores-portugueses-famosos/